Até o dia em que o cão morreu
Toda vez que vou para Porto Alegre fico impressionado com o cenário cultural dos caras. A gente – do afamado eixo Rio-São Paulo – fica achando que o que acontece no Brasil é basicamente o que acontece no eixão. A coisa, porém, não é bem assim. Os gaúchos tem um mundinho todo deles, sem vínculos. Além daquele monte de bandas que a gente pouco ou nunca ouviu falar (Cachorro Grande, Júpiter Maçã, etc.), tem também um pessoal novo escrevendo livros interessantes.
O Daniel Galera é um deles.
Peguei o livro dele na livraria do aeroporto. É um paulista que viveu quase toda a vida em Porto Alegre. Até o dia em que o cão morreu é o título. Um livro curto, são umas noventa e tantas páginas, que dá pra ler numa sentada só, esperando um vôo atrasado da TAM. Bem organizado, gostoso de ler, sem beletrismos e com uma originalidade digna de nota. Vale a leitura.
Mas que raios de post é esse em um blog de propaganda?
É que o personagem principal é um daqueles anti-propagandistas militantes. O cara namora uma top model e acha absurda a sua opção pela estética da propaganda. A busca pela perfeição, a beleza radical, a magreza. Tudo isso incomoda demais o personagem, que gosta mesmo é dos pequenos defeitos da sua namorada, suas sardas e ossos pontudos. E o Daniel Galera me colocou a pensar. Menos sobre a dicotomia entre a beleza real e a beleza proposta pela propaganda – isso tudo já foi dito pela Dove, Natura e outras tantas – e mais sobre o fazer arte e o fazer propaganda. Quanto vale o que a gente faz diariamente? Centenas de cabeças criativas gerando idéias e mais idéias tão perecíveis quanto os desenhos que fazemos na areia da praia. Anúncios de revista que serão ignorados e malas diretas que irão diretamente para a cesta de lixo.
Um trecho divertido:
“A propaganda era sobre um serviço no qual o usuário ganhava descontos nas ligações de celular pra determinados números a sua escolha. Algo do tipo “pague mais barato para falar com seus amigos”. O anúncio, dirigido ao público jovem, mostrava um grupo de amigos numa praia. Dois surfistas musculosos de sunga e três minas gostosas de biquini, alinhados diante do mar com grandes sorrisos no rosto e cabelos impecavelmente penteados. Os modelos estavam posicionados lado a lado (…) A mensagem por trás daquilo seria algo como “converta suas amizades em dinheiro”. Era sem dúvida o anúncio mais retardado que eu já tinha visto.”
Se alguém quiser encarar o Até o dia em que o cão morreu, o livro está na minha mesa. Se alguém de fora da agência estiver lendo isso, tem na Livraria Cultura pra vender.


Pode mandar o livro pra Rua do Rócio, 430? E quanto ao tópico propaganda x arte, relaxa: a propaganda, é só um trampo. Mas o que a gente pode parar pra pensar é o seguinte: o que a gente anda fazendo pela/com/via arte?
Comentário de Bruno — 22, Maio 2007 @ 4:21 pm
Deixa de ser mão de vaca e compra o livro. Aproveita e vai na nova Cultura do Conjunto Nacional. Ou passa aqui na Salem e pega ele.
Comentário de James — 22, Maio 2007 @ 4:49 pm
Pois é mas quando fui na sua mesa, o Marinho já tinha pegado. Só sei que sou o segundo da fila…
Comentário de Daniel Sollero — 22, Maio 2007 @ 11:35 pm
Eu treinei o meu Cachorro na “Lord Cão” eles são nota 10, o meu Cachorro agora só falta falar http://www.lordcao.com.br
Comentário de danilo — 12, Novembro 2008 @ 2:56 pm